Putin diz que o seu país nunca perderá uma guerra contra a Europa

A Rússia não tem planos para entrar em guerra com os países europeus, mas se a Europa iniciar uma guerra, a Rússia está “pronta agora mesmo”, disse o presidente russo, Vladimir Putin, horas antes de se encontrar com uma delegação norte-americana para continuar conversações estritamente bilaterais sobre a Ucrânia.

O enviado especial dos Estados Unidos, Steve Witkoff, reuniu com o presidente russo esta terça-feira, num encontro que estava originalmente marcado para as 17 horas locais (19 horas pelo horário da Europa central, mais uma que Portugal), mas que começou com quase três horas de atraso, dado que o presidente russo estava num fórum de investimentos. A reunião ainda não tinha sido encerrada aquando do fecho desta edição do JE Diário. Do lado russo, as negociações incluem Yuri Ushakov, um dos principais assessores do Kremlin, e Kirill Dmitriev, um negociador económico russo e líder do fundo soberano do país. Witkoff era acompanhado por Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Apesar do atraso, Putin não perdeu tempo e, em pleno fórum, tratou de acusar a Europa de ter uma perceção errada do problema da guerra na Ucrânia. Em pleno fórum de investimentos em Moscovo, Putin culpou os europeus por não terem uma “agenda de paz” e disse que a Europa está “do lado da guerra”, referindo-se ao apoio ocidental à Ucrânia. “Se a Europa decidir entrar em guerra com a Rússia e de facto iniciar uma guerra, uma situação poderá surgir muito rapidamente: Moscovo simplesmente não terá com quem negociar”. De acordo com Putin, os governos europeus “vivem sob a ilusão” de que podem infligir uma derrota estratégica à Rússia e repetiu que as exigências europeias para colocar fim à invasão russa são “inaceitáveis” para Moscovo.

Putin reiterou mais uma vez a posição do Kremlin: negociar apenas com o governo dos Estados Unidos e não permitir a presença de líderes europeus à mesa de negociações, alegando que estes estão “a atrapalhar” os esforços do governo norte-americano e do presidente Donald Trump para “chegar a um acordo de paz por meio de negociações”.

Entretanto, segundo a imprensa russa, Dmitriev esperava Witkoff e Kushner no Aeroporto Internacional de Vnukovo, em Moscovo. Os três caminharam juntos pelo centro da capital russa e almoçaram num restaurante local. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse que Witkoff apresentaria a Putin a versão mais recente do acordo, elaborado nas recentes rondas de negociações em Genebra e na Flórida, EUA – onde estiveram Witkoff, Kushner o secretário de Estado Marco Rubio, que reuniram com uma delegação ucraniana liderada pelo secretário do Conselho de Segurança e Defesa Nacional, Rustem Umerov. A visita a Moscovo marca o sexto encontro de alto nível entre Witkoff e Putin – as sessões anteriores, realizadas em 11 de fevereiro, 13 de março, 11 e 25 de abril e em agosto, duraram de três a quatro horas cada.

Horas antes do encontro, Donald Trump, no início da sua habitual reunião de gabinete, admitiu que “temos um problema com uma guerra que o nosso país está a tentar resolver agora, entre a Rússia e a Ucrânia”. Recordando que os Estados Unidos já não estão “envolvidos financeiramente”, apenas vendem armas para a NATO, estão, ainda assim, a tentar “resolver essa questão”. “Já resolvi oito guerras. Esta seria a nona, e nossa equipa está na Rússia neste momento para ver se conseguimos chegar a um acordo. Não é uma situação fácil, podem acreditar, é uma confusão. É uma guerra que jamais teria acontecido se eu fosse presidente, nem pensar”.

Ao concluir a reunião de gabinete de duas horas com Trump, o secretário de Estado Marco Rubio disse que Trump é o “único líder no mundo” que pode ajudar a acabar com a guerra na Ucrânia. “Enquanto conversamos, Steve Witkoff está em Moscovo para tentar encontrar uma forma de acabar com esta guerra”, acrescentou Rubio. E recordou que “esta não é a nossa guerra, esta não é a guerra do presidente Trump”.

 

O que diz o acordo

O atual ‘estado de arte’ da guerra indica que a Rússia, que invadiu a Ucrânia em fevereiro de 2022, controla cerca de 116 mil Km2 de território ucraniano, mais de 19%, apenas um ponto percentual a mais do que há dois anos. Mas as forças russas avançaram em 2025 no ritmo mais acelerado desde 2022. A Rússia afirma que a Crimeia, anexada em 2014, as regiões de Donetsk e Luhansk (o Donbas) e as regiões de Zaporíjia e Kherson, fazem parte da Rússia – algo que as Nações Unidas declaram ilegal segundo o direito internacional. A Rússia também controla partes de outras regiões ucranianas, como Kharkiv, Sumy, Mykolaiv e Dnipropetrovsk.

Segundo o conjunto inicial de 28 pontos da proposta de paz norte-americana, a Ucrânia seria obrigada a se retirar de partes fortemente fortificadas de Donbas que controla – cerca de cinco mil km2 – e essa área seria considerada uma zona tampão neutra e desmilitarizada, reconhecida internacionalmente como território russo. De acordo com a proposta, a Crimeia, Luhansk e Donetsk seriam reconhecidas como territórios russos de facto, inclusivamente pelos Estados Unidos. Os avanços russos em Zaporíjia e Kherson até a linha de frente também seriam reconhecidos “de facto”.

Na contraproposta das potências europeias, que consideravam a versão inicial do plano dos Estados Unidos fortemente pró-Rússia, a Ucrânia comprometer-se-ia a não recuperar pela força o território controlado pela Rússia. Um conjunto adicional de propostas foi então discutido por autoridades norte-americanas e ucranianas, e Zelensky afirmou que as conversas na Flórida “aprimoraram” um acordo-quadro de paz desenvolvido em Genebra. Zelensky aceitou que alguns territórios ocupados pela Rússia podem ser reconhecidos como temporariamente ocupados de facto, mas descartou qualquer reconhecimento ‘eterno’. E também recusou a possibilidade de ceder território, alegando não ter mandato para isso, pedindo aos aliados ocidentais que façam o mesmo.

Uma das principais exigências de Putin para o fim da guerra é que os líderes ocidentais se comprometam por escrito a suspender a expansão da NATO – neste ponto, Moscovo socorre-se de uma garantia nesse sentido dada pelo secretário de Estado norte-americano James Baker ao líder soviético Mikhail Gorbachev em 1990. A proposta inicial dos Estados Unidos incluía uma cláusula que impedia essa expansão da NATO. Por outro lado, a Ucrânia poderia solicitar o acesso preferencial temporário ao mercado europeu enquanto o seu pedido de adesão à União Europeia estivesse a ser analisado.

A contraproposta europeia é que a adesão da Ucrânia à NATO dependeria do consenso entre os Estados-membros, algo que nunca aconteceu antes: o lado europeu da aliança há muito que solicita a entrada da Ucrânia, mas a administração norte-americana -a atual e a anterior, liderada pelo democrata Joe Biden, nunca estiveram de acordo.

A Ucrânia afirma precisar de uma garantia de segurança robusta para evitar outro ataque russo. A Rússia exigiu limites para a dimensão do exército ucraniano e afirma que a Ucrânia deve manter-se neutra. Os Estados Unidos têm-se mostrado cautelosos em relação a qualquer garantia de segurança que possa comprometer o Ocidente numa possível guerra futura entre a NATO e a Rússia por causa da Ucrânia. Mas Kiev não quer quaisquer limites às suas forças armadas.

A proposta inicial indica que a Rússia, que está sob sanções ocidentais, seria reintegrada na economia global e convidada a fazer parte do G7 – que voltaria a passar a G8, como chegou a suceder no passado. A participação da Rússia no G8 foi suspensa em 2014, após a anexação da Crimeia. Os Estados Unidos afirmam estar disponíveis para fecharem um acordo de longo prazo com a Rússia para desenvolver “energia, recursos naturais, infraestrutura, Inteligência Artificial, centros de dados, projetos de extração de metais de terras raras no Ártico “e outras oportunidades corporativas mutuamente benéficas”. Em perspetiva está também a possibilidade de Rússia e Estados Unidos retomarem as negociações sobre o controlo de armas nucleares estratégicas. O futuro do complexo nuclear de Zaporizhzhia, localizada em território ucraniano controlado pela Rússia, é incerto – mas algumas fontes indicam que Moscovo poderia oferecer a empresas norte-americanas participações no seu vasto setor de recursos naturais.

Recorde-se que os aliados europeus de Kiev, horrorizados com o plano de 28 pontos emanado dos Estados Unidos, responderam rapidamente com o seu próprio documento, no qual muitos dos elementos mais controversos – incluindo o reconhecimento por Washington da Crimeia, Donetsk e Luhansk como territórios russos de facto – foram removidos.

Entretanto, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, passou o dia na Irlanda. A imprensa russa, nomeadamente a agência TASS, afirmava que circulavam rumores de que o presidente podia já não voltar ao seu país natal!