O imperativo da Europa em garantir o futuro de Kiev e o seu

A União Europeia (UE) não está apenas a reagir à guerra na Ucrânia; está a ser refeita por ela. Esta guerra é o momento fundador de uma nova arquitetura estratégica europeia, moldada pela pressão da história e pela ausência de garantias alheias. O processo de metamorfose assenta agora sobre dois pilares convergentes: a responsabilidade estratégica de apoiar Kiev e a oportunidade de ressuscitar a nossa Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (BTIDE) através de um círculo virtuoso de investimento e soberania.

Saímos da fase da solidariedade imediata — moral e emocional — e entramos na fase da responsabilidade estrutural. O desafio de Bruxelas é, hoje, transformar esse impulso em política duradoura: uma arquitetura de financiamento vasta, sustentável e que consagre o futuro da Ucrânia à órbita europeia, um movimento que se tornou um imperativo geopolítico.

Num momento em que o Congresso norte-americano hesita e parte da Europa acusa fadiga de guerra, a Comissão Europeia recoloca o debate no lugar certo, propondo três vias para financiar os cerca de 140 mil milhões de euros necessários: empréstimos, mutualização de dívida e, a opção mais politicamente simbólica, a utilização dos ativos russos congelados. Mas o xadrez de Zelensky impõe ver essas vias não como alternativas, mas como partes de um mesmo quadro estratégico.

O Presidente Volodymyr Zelensky transformou a Ucrânia de um mero destinatário de ajuda numa parceira de segurança ativa com ambição industrial própria. A sua diplomacia produziu um mosaico de acordos de segurança bilaterais que procuram, em simultâneo, despolitizar o apoio, torná-lo imune a ciclos eleitorais e, sobretudo, integrar a nascente Revolução Industrial da Defesa Ucraniana no tecido produtivo ocidental. Este é um aspeto central da Doutrina Zelensky: garantir que o esforço de guerra e a reconstrução se baseiem em compromissos plurianuais, com obrigações jurídicas e de cooperação industrial, sustentando assim a resiliência e a capacidade de produção doméstica de Kiev, e não apenas em doações ocasionais. A Ucrânia está a forjar a sua própria resiliência.

A Europa deve espelhar essa lógica. A opção da dívida conjunta seria a mais coerente com a natureza comum da ameaça, mas continua a esbarrar na resistência dos falcões orçamentais — os que confundem prudência fiscal com miopia estratégica.

É neste contexto que a utilização dos ativos soberanos russos congelados surge como a solução mais equitativa e geopoliticamente consequente. Não basta canalizar os juros: a proposta de usar cerca de 200 mil milhões de euros como garantia (colateral) para um empréstimo maciço à Ucrânia representa o instrumento mais sólido para financiar a responsabilidade europeia, eliminando o custo direto e imediato para os orçamentos nacionais. O encargo só se materializaria num cenário extremo de tripla falha, tornando-se, em teoria, zero. Contudo, o debate não é isento de riscos: a apropriação de ativos soberanos levanta questões jurídicas complexas, podendo afetar a confiança no euro enquanto moeda de reserva. O equilíbrio entre legitimidade moral e segurança jurídica será, pois, decisivo para a credibilidade do projeto.

O essencial é que esta operação não se limite a uma dimensão financeira. O dinheiro aplicado na reconstrução da Ucrânia deve alimentar a consolidação da autonomia estratégica europeia. É aqui que a agenda da defesa ganha tração. O novo processo de compra conjunta de material militar europeu é mais do que uma medida contingente: é uma política industrial orientada para o poder. Ao fixar o objetivo de que metade das aquisições seja feita dentro do bloco, Bruxelas inicia um ciclo virtuoso de reindustrialização que beneficia quem possui capacidade instalada — França, Alemanha, Itália e Suécia — e estimula quem precisa de a recriar. Este movimento simultaneamente reabastece os arsenais europeus e fortalece a BTIDE, convertendo o esforço de guerra numa alavanca de competitividade e inovação.

A Europa aproxima-se, assim, de um ponto de não retorno. A hesitação custar-lhe-ia mais do que o investimento. O financiamento sustentável baseado em ativos russos, as garantias de segurança firmadas com Kiev e a consolidação da indústria europeia de defesa são faces indissociáveis do mesmo imperativo estratégico. Se a União falhar, não perderá apenas a Ucrânia, mas a sua própria ambição de ser potência. O preço da ação é alto; o da hesitação será existencial.