Portugal tem condições para liderar a Europa no esforço de descarbonização e transição verde, dado o trabalho que tem sido feito nos últimos anos, os recursos naturais à disposição e uma consciencialização da sociedade civil para a importância desta agenda. Isto foi o que defendeu Nelson Lage, presidente da ADENE – Agência para a Energia, no arranque da conferência “Revolução Energética em Curso”, promovida pelo Jornal Económico.
Isto é verdade, mas durante as várias intervenções nos painéis que se seguiram, feitas por protagonistas do ecossistema da energia, ficou claro a existência de condições é condição necessário, mas não suficiente. É necessário concretizar, decidir, avançar. “É preciso urgência”, sintetizou o ex-secretário de Estado João Galamba, mais tarde, no encerramento dos trabalhos.
Apesar de Portugal já ter uma produção hidroelétrica que em 2023 representou 27% do total da eletricidade produzida, o setor acredita que o país tem capacidade para aumentar ainda mais o seu potencial, mas cabe ao Governo dar esse passo. “Portugal tem condições para armazenar mais energia hidroelétrica, mas estamos num momento em que o Estado português tem de decidir se quer ou não este armazenamento. Ou se ficamos no curto prazo só com as baterias”, afirmou David Rivera, country manager da Iberdrola em Portugal, no painel dedicado ao tema, Distribuição, redes e armazenamento: a revolução invisível.
Um exemplo concreto: o projeto Tâmega da Iberdrola, que representa um investimento de cerca de 1,5 mil milhões de euros, que engloba as barragens do Alto Tâmega, Daivões e Gouvães e demonstra que o país pode medir forças com os mercados internacionais.
“O Tâmega está a prestar um grande serviço ao sistema elétrico português. As energias renováveis têm um valor económico e estão a permitir a Portugal ser competitivo”, referiu. Agora, “é preciso criar as ferramentas que permitam uma previsibilidade de investimento”, diz. “Estamos a ver uma revolução no mercado. É preciso retribuir para que as renováveis possam ter um preço mais competitivo possível. Todas as tecnologias têm de colaborar”, acrescenta David Rivera.
Processo e previsibilidade
Carlos Ferraz, CEO da Atlante Portugal, também apontou a questão de previsibilidade. “Continuamos a demorar muito tempo nos processos burocráticos. É essencial que sejam céleres e vão de encontro às necessidades do mercado”, afirmou.
Com sede em Itália e presente em Portugal desde 2023, a Atlante destaca-se pelo carregamento rápido e ultrarrápido de automóveis alimentada a 100% por energias renováveis.
“Tem sido até ao dia de hoje uma boa aposta”, diz. “O mercado português está muito evoluído em relação aos países do sul da Europa, em postos de carregamento rápido e ultrarrápido”, acrescentou, apontando, no entanto, a questão a previsibilidade como um constrangimento. “Estamos à espera da regulamentação da mobilidade elétrica. Aguardamos as novas regras até ao final do ano. Vemos com alguma preocupação a falta de estabilidade e previsibilidade que é muito importante quando falamos de investimento num mercado recente, que ainda não é maduro”, afirmou Carlos Ferraz.
Então, como se aceleram processos para aproveitar as oportunidades? Mais do que leis novas ou regulamentos, o país necessita sobretudo de “urgência” para conseguir maior eficiência e autonomia energética, sob pena de deixar fugir as vantagens comparativas que tem de momento ou ver agravar algumas dinâmicas menos favoráveis, defende João Galamba. O essencial é Portugal “consciencializar-se da urgência” necessária em vários capítulos da política pública, incluindo o energético, reforçou.
Rivera também abordou este tema, dizendo que é preciso maior rapidez até para responder ao que faz Espanha. Com a interligação das duas redes, temos de estugar o passo para não ficarmos irremediavelmente para trás no solar, principalmente, e na energia eólica.
Ferraz apontou a oportunidade na sua área do carregamento para carros elétricos, em que em Espanha os números são completamente díspares naquilo que é o modelo de negócio da empresa em Portugal. “Nos carros elétricos temos mais de 20% de ligeiros novos, em Espanha anda nos 12%. Claro que as empresas tendem a investir onde há este tipo de mercados”, referiu.
Na prática, esta necessidade de urgência e ação “traduz-se numa necessidade de clarividência das várias autoridades”, diz Galamba, hoje em dia consultor, que defendeu a necessidade de “coordenação entre política energética e económica” e a gestão de rede, um aspeto “cada vez mais importante”. E deixou reparos, a título de exemplo, à postura do presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, que, apesar de “desenhar e definir um
leilão internacional”, veio a público criticar o promotor, num “momento verdadeiramente embaraçoso” para o país. Também o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas ou, até, o Ministério Público, que intervêm nos processos.
“É uma tragédia para o país e um milagre as pessoas quererem continuar a investir no país apesar disto”, completou João Galamba.
“Portugal conseguiu ganhar a confiança de muitos investidores para trazerem o seu investimento. Essa confiança demora muito tempo a ser ganha, mas facilmente se perde”, alertou David Rivera.




